DEZ POEMAS LONGOS E IMPORTANTES DE VANESSA BRUNT

A autora Vanessa Brunt é conhecida, principalmente, pelos poemas mais sintetizados e trechos curtos viralizados na internet, mas existe o principal lado da sua obra: aquele que a leva ao verdadeiro reconhecimento.

A autora Vanessa Brunt é conhecida, principalmente, pelos poemas mais sintetizados e trechos curtos viralizados na internet, mas existe o principal lado da sua obra: aquele que a leva a premiações variadas e reconhecimento acadêmico mais amplo. Os poemas longos, contos-novela e crônicas metafóricas são seus pontos altos na literatura.

Confira, portanto, uma seleção de dez desses poemas mais longos que ajudam no entendimento da sua escrita, sem deixar de lado os jogos de palavras do Estilo Bruntiano:

1. QUANDO NÃO FOR ESPERA

Tudo o que ela precisa
É desaprender a morrer
Que de tanta morte-viva
Acostumou-se a se refazer.

Por onde a pulsação anda
Ela arrasta todo o caixão
E onde aparece uma sombra
Prepara o buraco no chão.

Pega o corpo defunto molhado
E levanta inteiro outra vez
Sem crer em dia ensolarado
Que poderia enxugar os clichês.

Faz flor na terra esburacada 
Mas não acredita em quem se diz vivo
Arranca das costas facada
E não confia nos curativos.

Tudo o que ela precisa 
Ah!
É desa-pren-der.
Que de tanto ser natural, morte
Nem acredita mais em benzer.
Não fecha os olhos em cochilos longos
Nem mesmo permite que dure o repouso.
Procura provas de que o pernilongo
Fará outro homicídio culposo.

Tão amada quando quase-sem-alma.
Tão adorada quando em autópsia.
Porque para os quase-sem-vida
Tantos batem palma.
E quando ela quase-vai, 
Sempre vem a biópsia. 

Tudo o que ela precisa, oras! 
É uma história para não se enterrar
Um livro, uma água fresca, uma semente
Que vai florear.
Uma paciência de Jó
Para entender quem muito voltou
Dos mortos, terra na garganta 
De onde ninguém mais pisou.

Um filete de luz quando o escuro
Vier de mansinho pós-sol
Um sentimento todo seguro
De nem morrer, nem viver
Em prol.
Apenas coisa bonita, que não fecha
A entrada do ar que respira.
Tudo o que ela precisa
É aprender mais o que admira.

Porque

Quando o tempo não for mais o tempo
E o doer não for a-versão
Quando tanto não der n’outro pranto
Quando o sim for menos que o não
Ela chora, ardendo, gritando
Faz calar toda, tanta, ilusão
E o peito, cremado, berrando
Diz, enfim, que chorou de emoção
Sabe, aqui, que tudo faz motivo
Quando a hora não é de moer
E o bordado, bordado agressivo
Sabe, enfim, n’outra mão se caber

E o sentido que ninguém achava
Escondido, no que era pra’si
Faz resposta, assim, intuitivo
Como se choro pudesse sorrir

Entre adeus, chegadas e meios
Prefere ter tudo onde possa ficar
Porque voltar, já não suficiente
Faz a dor calejada sarar
Mas fica inda batendo tão roxo
E assim ninguém volta a sua cor
Aprendido que o cadarço frouxo
Não segura nenhum caçador 

E agora ela entende o momento 
De agradecer somente a quem fica
Casa, ninho, asa que descansa
Quando ir não destrói o que habita
Quando o tempo não for mais o tempo
Quando a marca não mais desbotar
Ela vai terminar o bordado
Ela vai saber se podar
Porque horta, para crescer grande
Só se poda quando se rega
Quando o tempo não for mais o tempo
Ela vai enxergar quando cega.

A mão cinza e o dedo gelado
Vão provar que soltar é fugir
Vão tocar no peito esgoelado
Como se morto pudesse sorrir

Quando tudo não for mais a tora
Quando a hora não for o seria
Toda cura será para agora
Todo precisar saberia
Pelo belo de (se) achar mais bonito
Dentro d’olho de quem faz caminho
Casa, tranca, risco na parede
Quando tempo não se faz sozinho

E ela vai saber ceder, 
Vai pedir
Demorado
Quando o tempo não for mais o tempo
Finalmente não será (mais) calado

Que de tanto corpo sem vida
Parou de ter tempo para viver
Mas quando o tempo não for mais o tempo
Não terá tempo é para morrer.

(Vanessa Brunt)

2. MAIORES NA INFÂNCIA

Ei, eu vi uma luz na sua raiz
E é tão raro para mim
Querer regar.

Ei, eu sei da sua cicatriz
E meu pulso também
Não consegue
Enxaguar.

Ei, tem algo no jeito
Em que o poste faz brilho
Na rua molhada.
São detalhes assim
Como sua mão no meu cabelo
Que me fazem, vivida,
Tão achada.

É que ando meio perdida
Sempre,
Mesmo quando sei de mim.
Vivo driblando piscinas vazias
Querendo alma na pornografia
Sentada no trampolim.

Ei, eu vejo uma poesia
No jeito como seus olhos
Viram lágrimas ao rir.
Sinto aqui anestesia
No meu medo e nessa biografia
Que só fala de partir.

Ei,
Cê não sabe metade
Das metades que eu vivi
E do quanto estou cansada
No décimo degrau da escada
Não querendo recair.

Mas eu também não sei
De todos os seus hematomas
Só sei que quero descobrir.
Eu vejo um tesouro no fundo
Do seu receio fecundo
De ser dois e subtrair.

Ei,
Cê ainda não sabe
O quanto é difícil pra mim
Querer ser tão fácil.

Mas quando começo
Não vejo outra forma
De inici-ar.

Eu vivo dentro de uma caixa
Com trinta cadeados
Até que apareça
Quem me faça ficar.

E aí eu mergulho
Não sei ir aos pouquinhos
Mas aprendi a ter cautela
A ter uma cota de espinhos.

Cê disse que não entende
E que tudo isso é exagero
Mas um dia sua luz
Vai te esclarecer.

Perto ou longe de mim
Vem algum desespero
Pra mostrar que só ele
Pode nos merecer.

Ei, deita aqui por enquanto
Trago quase tudo o que posso oferecer…
Cafuné, verdade e, quem sabe, um tanto
Do meu poetar
E do meu descaber —
Pra cê levar depois que formos
Pra gente fazer alguma marca
Que não precise sangrar…

Eu pedi desculpa
Porque eu vi uma luz
E tenho essa mania
De intensificar.

Então, ei,
Encosta aqui por enquanto
Enquanto ainda tenho coragem
De correr o risco.

Enquanto sua luz é mais forte
E ainda vejo meu norte
Enquanto a chuva
É chuvisco.

Eu vi uma luz aí dentro
E não sei se vou demorar
Mas enquanto estiver
Espero arrombar
Alguma porta fechada
Alguma tranca enferrujada
Algum medo escondido.

Espero que faça alecrim
Com o que temos aqui
E que não armemos
Regalos bandidos.

Ei,
Eu quero dançar com você
No meio do estacionamento
No meio de uma loja
Com sorvetes nas mãos.

Quero devolver
A sua crença e cimento
Deixar um pouco de soja
Pra sua oração.

E, quem sabe, cê me conheça um pouco
E valorize meu jeito torto
De não ser paciente
E de querer ir com cuidado
Mas com tudo de uma vez.

Eu vejo um tom na sua essência
Que talvez cê tenha dado
Como morto.
Vejo cores gradientes
Vejo na guerra, um soldado
Que salvaria lucidez.

E, ei,
Eu quero um poste enorme
Cobrindo uma rua esburacada
E eu quero nossas mãos entrelaçadas
Até que tudo escureça.

Eu quero seu nariz no meu
Sua sequência de beijos
E o que temeu —
Até onde a dor
Não prevaleça.

E eu prometo fazer mil cartas
Mil poemas que cê nem vai ler
Porque eu vi uma luz
E eu preciso escrever —
Até quando ainda valer a pena
Até quando não apequenar.

Deixa eu ver quem é você no escuro
Deixa eu te dar um nome para lembrar.

Só não me tranque do lado de fora
Não apague a força da sua aurora
Não vire mais uma foto
Que eu preciso queimar.

Mostre seu braço tatuado
Não caia nessas ruas de enjaulados
Que juram que liberdade
É cortar.

Ei, eu vi uma luz na sua raiz
Estou testando a minha fé.
Eu sei
Da sua cicatriz
E tenho uma mancha
Onde dei ré.

Ei, ei, ei!
Eu vejo um poema
Sempre que cê para
E abre a greta um pouco mais.

Só não se iguale aos pequenos
Veja o poder dos acenos
Só tire a minha roupa
E não tire a minha paz.

É que, ei!
Não sei ficar onde não é fácil
Onde a minha entrega
Não tem valor
Onde buscam pelo ás.

Eu vejo um brilho na sua sala
A verdade no que cê cala
E uma catraca sem crachás.

Marcados demais para a ingenuidade
Sozinhos demais para o acolhimento
Apunhalados demais para a confiança.
Esquecido que só vale o que causa ansiedade
Enrugada demais para ser de momento.
Que dure até enquanto pudermos ser crianças.


(Vanessa Brunt)

3. COMO DER, JANTAR

Estou estendendo a toalha na mesa
Enquanto arrasto a mala
Pela sala de jantar.

Ciente da nossa defesa
Vejo ali uma bengala
Que ninguém quis arriscar.

Depois de tanta poesia
Fios e traços embolados
Sinto pela estadia
E por estarmos tão cansados:

Antes mesmo da bússola
Ou do sorriso tristonho.
Sinto muito se não fui
Como seu antigo sonho.

Mas suas linhas seriam tudo
Que eu precisaria pra escrever
Se não fossem pelos traços
A nos submeter.

E o oceano no seu olho
Fácil de nos alinhar
Passou o dedo na minh’alma
E se deixou um tanto lá.

E é por isso que eu ainda posso
Pôr a mesa e uma estrela cadente
Enquanto lembramos que nada
Permanece permanente.

Eu posso deixar uma muda de roupa
Eu posso esquentar o café
Pra gente sentar, enquanto tudo nos poupa
De mais uma xícara derramada de fé.

Eu posso deixar uma roda
Emperrada no meio do vão
Pra quando quiser me contar
O que apertou o seu pulmão.

Eu posso largar mais pedaços de mim
Pelo seu sofá
Só não pode ser como quase foi
Caberemos caber nesse não será.

Então chega perto pra eu te ter de outro jeito
Porque não podemos ser tudo aquilo
Mas é você que eu quero
Pra entender os nadas.

Senta aqui pra caber no meu peito
E não finge que está tranquilo
Em só me olhar da arquibancada.

Eu quero seu violão perto
Nosso (a)braço aberto
Pra chegar a dança.

Se não pode ser assim tão certo
Que seja no entreaberto
(Greta)
Da nossa fiança.

Chega aqui mais um pouquinho
Não bate essa porta
Que eu vou nos servir.

Eu posso não poder ficar
Mas também não aceito
Ter que nos partir.

Quero ouvir sua semana
O fogo e a chuva do seu mês.
Porque sinto que se formos embora
Nem o espelho
Verá talvez.

Estou estendendo a toalha na mesa
Enquanto arrasto a mala
Pela sala de jantar.

Ciente da nossa defesa
Vejo ali uma bengala
Para nos engatinhar.

Depois de tanta poesia
Fios e traços embolados
Quero mais que uma estadia
E nossos olhos enrugados.

Chega mais perto pra gente
Achar outra maneira de se apoiar…
Se nossos mundos não se encaixam
A gente pode

Via
Ja
r.

Eu quero ao menos ser seu ombro
Ser um colo, uma ponte
Uma conversa larga
No meio do bar.

Se nossa hora não é hoje
E talvez nunca seja: conte
Ao menos com essa perna
Pra te desembolar.

Só não se perde de mim não
Que depois demora de crescer
O tanto que poderia
Bastando não nos perder.

Que o escuro no meu olho
Tão fácil de nos matar
Passou o dedo na sua alma
E espera nos clarear.

Estou estendendo a toalha na mesa
E convidando você pra entrar.

Tire minha pele, meus ossos
E, prazer,
Quero nós dois
Com o que sobrar.

Estou estendendo a toalha na mesa
E me convidando para além cheirar.

Tiro sua pele, seus ossos
E, prazer,
Quero nós dois
Como o que ficar.

(Vanessa Brunt)

4. BUSCA ETERNA

Felicidade, profeta?
Sempre esteve em mim
Mas sempre fui poeta
Atrás d’outro Enfim!
Que coisa mais tardia
Chegar querendo cálculo
Da minha alegria
Se vivo ali no palco.
Choro, rio, jogo-me e sou
Nem plena e nem desatenta
Nem mesmo o que restou
Nem oito ou oitenta.
Entre as análises das dores
E das lições também dos risos…
Nunca deserto, nem flores.
Entre batimentos e juízos.
Nem tristeza e nem euforia,
Ainda que muito as seja,
Sou mesmo é a carniçaria
Aberta na bandeja.
E quando eu alcançar tudo
O que me dói nos rins,
Diga a eles que inda acudo
Meus saberes, nãos e sins.
Quando tudo fizer sentido,
Quando toda resposta houver,
Diga a eles que meu eu perdido
Inda lerá o que nem se é.
Fico mesmo é nesse papel
Branco, decalcado,
Nessa arte tão cruel
De tentar
Significado.
Fico mesmo é na importância
De fugir da infelicidade
Porque mais do que ser feliz
Ser poeta
É ser verdade.

(Vanessa Brunt)

5. PALAVRAS MAL-DITAS

Algum triz de amor nasce do mistério
e algum tanto de amor morre
pelo mesmo motivo.
Quando se demora
nas sombras do cemitério
o olho dói na luz ou
ao se sentir vivo.
Algum triz de amor nasce
da sensação de tentativa.
E algum tanto de amor morre
ao tentar duas vezes
onde-nem-paz-sou.
Quando se demora em inícios,
o final é sempre sobre
o (sempre)
que não começou.
— Algum triz de amor
nasce para
ver se fica.
Algum tanto de amor morre
por quem não
versifica.

(Vanessa Brunt)

6. OBRA-PRIMA

Todo mundo é uma casa.
Onde já se viu entrar em alguma
e sair deixando a porta entreaberta?

Todo mundo é uma casa.
Você não deveria quebrar uma
achando que a cidade encoberta.

Todo mundo é uma casa.
Você não deveria bagunçar
e colocar a culpa
em quem desarrumou a sua.
Todo mundo é uma casa!
Você não deveria pregar um quadro novo
se tem dívidas lá fora
ou algo que o torne:
falcatrua.

Todo mundo é uma casa.
Por isso nunca é simples
essa coisa de ir embora.
Fica sua digital na porta,
fica o que todos vão saber na rua,
fica um rastro seu
que mora.

Todo mundo é uma casa.
Não se pode reformar um pedaço
e querer voltar atrás
exatamente igual.
Todo mundo é uma casa.
Casa sente a diferença
se o açúcar for posto
no lugar do sal.

Ela é uma casa.
Se você não trancou direito,
nem sinto muito
se um ladrão adentrar.
Se você quebra a parede,
é pelo buraco
que a luz vai entrar.

Eu sou uma casa.
Eu sou minha casa.
Eu ganho uma nova sala
toda vez que outra casa
vem me visitar.
Fico melhor
quando quebram um cômodo…
isso é só espaço
pr’outro maior chegar.

Todo mundo é uma casa.
E se você tenta destruir as colunas
é sim em cima de você
que ela deve desmoronar.
Porque do que outra casa
está criando por causa da sua
é preciso também cuidar.

Se você colocou uma ponte
entre as duas
era óbvio que se uma desfaz,
a outra vai balançar.
E se a mesa de canto quebrou,
fica um vazio
ou uma oportunidade.
Depende de como vai enxergar.

Todo mundo é uma casa.
É preciso criar expectativas, sim.

Nenhuma revista séria
vai inspirar decoração duvidosa –
e sem expectativas
não há criações reais.
Todo mundo é uma casa.
É preciso esperar
que o sofá confortável da propaganda
funcione para o minuto de paz.

Expectativa
é diferente de ilusão.

Ilusão é coisa
que a casa cria sozinha.
É o barulho que ninguém explica,
é o que pensa da vizinha.

Mas você não deveria colocar um tapete na porta
se ninguém pode colocar os pés nele.
Se fulano vive estacionando lá o carro,
quando empatar uma garagem,
vão reclamar é dele.

Entende?
É sempre óbvio
quando se está gerando expectativas no outro.
Não entender
é como não ver
que sem rede,
janela não está segura.
É tão simples perceber
quando está sujo.
Sujeira guardada, inclusive,
aparece como mofo:
na casa,
na fatura.

Todo mundo é uma casa!
Todo objeto posto
gera uma ação.
Tudo gera alguma espera,
casa vive a (des)esperar.
Coloque um prato na mesa,
vão usar pro pão.
Não existe isso de calma
para o que está parado.
Parado largado
está.

Tudo o que você coloca ali,
precisa e vai ter uma utilidade…
seja para outra visita usar
ou para te assombrar mais tarde.

Todo mundo é uma (c)a-sa!

Bate asa é pra cá.
Bate asa pra ficar.

Você não pode julgar a decoração dela
e não pode querer
assim que ela te deixe entrar
se não viu as reformas anteriores.
Toda casa é mal-assombrada
pelos visitantes,
pelos que já morreram ali
e pelos moradores.

Todo mundo é uma casa.
A construção é constante,
mas para reformar
é preciso gastar
tudo o que desgastava.

Todo mundo é uma
ca
sa.

Queda é o que dá.
O resto tira
ou faz perceber
o que já estava.

Se não sabe se entra ou sai,
bata a porta de vez com força
ou o vento vai chegando
pra bater.
A cada demora
para ficar na casa,
os arredores vão levando ela de você.

Todo mundo é uma casa.
E se eu preciso ficar te lembrando disso
e de não sujar os seus pés na rua –
porque aí eles sujam também aqui dentro –,
vejo logo que cê é só ponte
pra reformar algo do centro.

Que ótimo,
vejo logo que você não merece
conhecer o andar de cima…
Vamos logo, se apresse,
porque minha casa está em obra
-prima.

7. SIMPLESMENTE JÁ SABER

Apresse-se lentamente.

Enlouqueça de forma sã.

Vá com tudo…
gradativamente.

Perca a fé de forma cristã.

Desista aos poucos,
para dar tempo de não desistir.

Abandone de vez
o que só te segura quando cair.

Saiba quando fugir é ser corajoso.
Acredite piamente, sendo curioso.

A vida adulta é sobre isso.

Ser um lado sem perder
a outra parte.

Não ser egocêntrico e nem submisso,
jogar fora sem fazer todo o descarte.

Estar quebrado e não partir ninguém.

Abrir mão do que te faz divertido
pelo que te faz bem.

Dar limites a tudo infinitamente.
Levar na brincadeira, seriamente.

E nem sempre tudo é tão possível.

Porque maturidade é também saber
quando emburrecer.

Maturidade é não levar em conta o que é plausível,
quando se leva em conta o que você já sabe
sobre você.

E este é o principal segredo.

Muita gente não vai entender a sua decisão.
Mas é sobre olhar os capítulos anteriores.

No meio do filme algum mocinho pode ter
se tornado o vilão.

Só você sabe de tudo o que precisa saber.

A vida adulta não é sobre enrijecer.
Mas é sobre não ignorar.

Pegar as coisas certas e se apegar.

Perceber que humilhação
é sobre não ter nada a pedir.

A vida adulta é ficar em você mesmo
e sair daqui.

Não ser feliz o tempo inteiro
para ser feliz de verdade.

Não ser tão livre na visão dos outros
para ter a própria liberdade.

Tomar decisões não apenas
por quem você é agora,
mas por quem você quer se tornar.

Re-cobrar algumas regras
apenas para impor novas,
e para organizar.

Ter raiva de tudo sem deixar a prece.
Abrir mão do que se quer
pelo que se merece.

Entender que não se sabe tanto,
mas também entender
quando já leu os sinais.

Prestar atenção nos padrões.
Ter como referência a própria paz.

Maturar não é sobre tempo,
mas sobre se autoconhecer.

Se eu fiz isto ou aquilo,
na maior parte das vezes,
foi simplesmente, por re-viver.

Adultecer.
Se bastar e se saber.

Adultecer.
Se bastar é se saber.

(Vanessa Brunt, @vanessabrunt)

8. ELA TERÁ UMA CASA DE CAMPO

Tenho sentido falta de mim.
De um lado antigo que precisou
adormecer.
Ilustrações jogadas no motim.
Aquela sonhadora que via o sol
antes-dele-nascer.

Mas não queria voltar a ser ela
pura e simplesmente.
A que sou hoje não é só mais forte,
sabe também enxergar beleza onde
a outra não via frequente.

A de hoje sabe que ser boa
é também saber quando ser vilã
em um conto jogado.
Só não queria ter que ser ela
sem poder ser também da de ontem
um bocado.

Tenho sentido falta da moça
que degustava a apreciação.
Com tempo ou sem, ela era pura
agonia, verdade, demora, visão.

Agora, a de hoje balanceia, não pode
ampliar um pouco do tanto a todo momento.
Queria que para ser ela não precisasse
matar um pedaço do tempo.

Queria que dessem as mãos;
a que tanto chorava
e as rugas que secam a água salgada.
Queria que fizessem plantão;
a que nem descabelava
e a que para tudo rios-remava.

Quiçá, no abraço delas more o equilíbrio,
que ainda não sei se encontrei.
Tenho saudade de quem não perdi
e nem tampouco precisei.

Clamo todas elas! Clamo.
Porque preciso sim.
Ora uma, ora outra.
Espero que um dia, nenhuma viva sem mim.

Tenho sentido saudade, tanto,
mas nem sei como fazer esse convívio
entre uma senhora sem espanto
e outra que só via declívio.

Elas vivem brigando, veja,
quando tento apresentá-las.
Talvez, olhe bem, a cereja,
seja uma casa de campo a olhá-las…

No dia em que aquela gente não obrigar nenhuma
a surgir.
Tenho sentido saudade.
Quem sabe passe
quando ninguém
precisar
fingir.

Quando a textura da flor
fizer no polegar
algo que se (a)guarde.
Quem sabe dure o cobertor…
quando todas elas puderem ficar
até mais tarde.

(Vanessa Brunt)

9. O TREM

Agora que o nosso tempo passou
E não podemos mais ser
Agora que a estrada mudou
E temos que passar blasé
Olha-me curioso, mas não pode correr o risco
Dói saber que o amor que sonha, é o amor que já não arriscou?
Agora que sigo do alto, sem indícios de viver assombrada
Agora que mando no asfalto, e você senta na arquibancada
Dói ler a página em branco com o texto que se decorou?
Um fio telefônico, uma mancha na roupa,
uma chance infinita
que
nunca
mais
voltou.

Agora que os tempos são outros, dói não ter a poesia?
Nas entrelinhas, tudo dito, em maturidade tão tardia.
Viveremos os olhares profundos ao fecharmos os cílios,
eternos no fundo do mar, jogados no meio dos trilhos.
Porque aquela luz que eu daria, não pode mais se acender.
Dói agora tanto potencial, que não dependia saber?
Ser jovem é mais pelo que vive agora do que
pelo tanto que já viveu.
Mas e quando já não se pode?
E quando o que quer

morreu?

Agora que o tempo passou
E já teve todo asterisco
Aprendeu a perguntar previsão
Antes de esperar chuvisco?
E também há a minha parte
De ter berrado calada.
Agora que nada mais é tanto
Dói a ferida sarada?
Agora que é amanhã
E somos outros destinos…
Falo o que sinto em sã
E você joga cristalino.
Porque hoje somos tudo
O que faltava
Mas
em filmes diferentes
Quando, antes, ajustar
bastava.
Dois preguiçosos, delinquentes.
Agora que não adianta o esforço
Agora que não se pode o pingo
Quando te doer o pescoço
Espero que lembre daquele domingo.
Porque sorte não é apenas
Estar preparado quando a chance vem.
É querer saber de tudo logo, antes que chegue
O relógio, um novo livro, um medalhão.
O trem.

(Vanessa Brunt)

10. VOCÊ NÃO PRECISA VOLTAR LÁ

Se um tubarão arranca o seu braço no mar, você foge para a terra e foca em respirar e se salvar ou fica na água indo atrás do tubarão, querendo explicar o erro dele e tentando descobrir o motivo dele ter feito isto?

Se a chuva alaga a sua casa, precisará saber o motivo dela estar caindo, ou só por cair e molhar, será suficiente para que feche as janelas? Se tubarão mordeu em água rasa, já estará você partindo, ou ainda precisará mergulhar para explicar as dentadas em suas canelas?

História que não faz ferimentos graves não é também bonita se nos pontos positivos estão faltando pontos fundamentais. É como um filme de romance revolucionário: sem choro, mas também sem luta ou sem algo: amais! Histórias sem grandes decisões não são grandes histórias. Vitórias sem pequenas abdicações são sempre contraditórias. É que tudo move montanhas, menos o que já não se move. É que o amor não salva nada se não dá casaco porque vai-que-chove. Para fazer o ninho, passarinho deixa bastante de voar, mas assim ele tem para onde ir na tempestade. O destino que se cumpre é a abelha que se mata ou o pinguim que vive pela lealdade?

Precisaria a cobra picar novamente para deixar claro o seu perigo? Precisaria ficar sem teto, realmente, para valorizar abrigo?

Se o caco está no chão, só vai jogá-lo fora depois que esquecê-lo o suficiente para que se corte? 

Se você já morreu naquele lugar, não acha que sair do túmulo para discursar…

diminuiria o peso da sua morte?

(Vanessa Brunt)

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